Em A infância de Jesus, J.M. Coetzee, ganhador do prêmio Nobel de 2003, imagina um país de estrangeiros que, depois de atravessar o oceano, pagam com o esquecimento da própria trajetória a oportunidade de começar uma vida nova.
A condição de estrangeiro também impõe uma língua nova, no caso, um espanhol adquirido precariamente e que ninguém domina por completo.
O leitor é guiado pelo olhar de Simón, recém-chegado que se atribui o papel de guardião de um menino de cinco anos e vai trabalhar como estivador, carregando sacos de grãos de trigo. A subsistência - o simples sustento pelo pão de cada dia - parece ser a única finalidade à qual se dirige a rotina do lugar, onde todos parecem se conformar, não só no que diz respeito à alimentação, a uma dieta moderada.
Inadaptado e insatisfeito, ainda que ansioso por compreender e ser aceito, Simón tenta fazer valer os direitos de alguém cujo corpo continua impregnado de memórias.
Nascido numa família africânder que usava o inglês dentro de casa, Coetzee fez do desconforto linguístico um dos temas de sua ficção. É com esse sentido de estranhamento que Simón trava debates filosóficos com os camaradas, na “ágora” da estiva, e faz o possível para explicar às mulheres um dos fatos mais básicos (e misteriosos) da vida: o desejo.
Cuidando da criança que um acidente lhe confiou e se lançando numa peculiar missão em nome dela, esse homem estabelece vínculos através dos quais a vida em família e a afetividade são expressas em sua face mais estranha.
Sobre o autor(a)
Coetzee, J. M.
J. M. COETZEE nasceu na Cidade do Cabo, África do Sul, em 1940. É autor de mais de vinte livros, entre eles Desonra, Elizabeth Costello, Verão e A vida escolar de Jesus, todos publicados pela Companhia das Letras. Recebeu inúmeros prêmios, com destaque para o Man Booker Prize, em 1983 e 1999, e o Nobel de literatura, em 2003. |