Todas as vezes que surge uma personagem negra estereotipada como essa nos programas de entretenimento aos domingos, a segunda-feira das crianças e adolescentes negros na escola será um filme de terror que se estenderá por semanas, meses e anos, a depender da duração da personagem na tevê. E os familiares dessas crianças perderão horas, dias, semanas e meses preciosos de educação, lazer e fruição ensinando-as a reagir, a não sucumbir, a manter a cabeça erguida, a preservar o amor próprio diante de tanta violência direcionada e objetiva.Os exemplos racistas da televisão também inspirarão situações de discriminação racial na escola, minimizadas por professoras e professores cansados e despreparados, para dizer o mínimo. As crianças e adolescentesnegros que não tiverem tido as lições de sobrevivência do amor-próprioministradas em casa se sentirão sozinhos, desprotegidos e injustiçados.Um dia perderão a paciência e poderão chegar às vias de fato com colegasracistas, como último recurso de autodefesa. Então serão taxados de violentos, serão estigmatizados na escola, perderão o estímulo para permanecer naquele ambiente, evadirão com facilidade e a redução da maioridade penal será apontada como solução para retirá-los mais cedo do convívio social e puni-los por terem reagido, da maneira que lhes foi possível, à opressão racial.
Sobre o autor(a)
Da Silva, Cidinha
Cidinha da Silva é escritora. Publicou dezenove livros, entre eles, O mar de Manu (Prêmio APCA 2021, melhor livro infantil), Oh, margem! Reinventa os rios! (2021), #Paremdenosmatar! (2021), Um Exu em Nova York (Prêmio Biblioteca Nacional, 2019) e Os nove pentes d’África (2009). Suas obras são traduzidas em diversas línguas. |